© Germano Luders/Exame Meyer Nigri, dono da construtora Tecnisa, tem passe livre no governo Bolsonaro INFLUÊNCIA

É um daqueles casos clássicos de compra na baixa que rende um retorno tremendo no futuro. Dono da Tecnisa, o empresário Meyer Nigri conheceu Jair Bolsonaro em 2016, quando o então deputado transitava pelas raias do baixo clero da Câmara. Desde então, os dois estreitaram laços. Nigri apresentou Bolsonaro à comunidade judaica, aproximou-o de expoentes do PIB e o ajudou na campanha presidencial. Eleito, Bolsonaro retribuiu ao assumir o Palácio do Planalto. A relação entre eles é tema de uma reportagem publicada na atual edição da revista VEJA.

Por sugestão do empresário, a Caixa lançou uma linha de crédito imobiliário que usa a inflação oficial (IPCA) para corrigir as prestações da casa própria. Também por indicação de Nigri, Bolsonaro nomeou Augusto Aras para o cargo de procurador-geral da República e Nelson Teich para o Ministério da Saúde. Quando o dono da Tecnisa conversou com VEJA, Teich ainda não havia pedido demissão, o que ocorreu na sexta-feira 15. Ao ser perguntado se o afilhado sairia do governo, Nigri respondeu: “Acho estranho, acho muito cedo”. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como o senhor avalia as medidas anunciadas pelo governo federal em resposta à crise?  Acho que as medidas econômicas ajudaram, como a redução da carga de trabalho acompanhada de redução salarial, mas para a retomada da economia precisaremos de mais medidas. Vou falar do meu setor. Precisamos fazer uma redução na taxa de juros para o cliente pessoa física. A Caixa está trabalhando com uma taxa de juros ainda muito alta, desnecessariamente, porque o custo de captação dela está muito baixo, e há espaço para repassar isso ao comprador. Quem vai ser beneficiado com a redução da taxa não seremos nós, os incorporadores, mas o comprador, que vai pagar uma prestação menor. Acho que o papel da Caixa tem que ser um papel social, principalmente neste momento.

O senhor participou recentemente de uma reunião no Planalto com o presidente Bolsonaro, o ministro Paulo Guedes e outros empresários. Abordou essa questão? Sim. Pedi para o Paulo Guedes. Raramente dá para falar de questões financeiras com o presidente, porque ele acaba delegando para o Paulo Guedes. Na reunião, sugeri que a Caixa deveria trabalhar com uma taxa de juros menor para a pessoa física. Não estou falando de pessoa jurídica.

O senhor já dobrou o governo uma vez, quando convenceu a Caixa a lançar, no ano passado, uma linha de crédito imobiliário que usa o índice de inflação oficial (IPCA) para corrigir as prestações da casa própria. 

Eu mostrei o plano do IPCA para outros governos e ninguém topou. Aí, antes mesmo de o governo Bolsonaro começar, apresentei a ideia para o Guedes. É uma medida muito boa para o setor. Quero deixar claro: eu acho que ainda não vendi um apartamento pelo IPCA. Eu acho. De qualquer forma, se existe algum benefício, não é pro mercado imobiliário, é para o comprador, porque a prestação cai. Em vez de a prestação ser muito alta no começo e pequenininha no final, ela equilibra um pouco.

Mas o setor também se beneficia, já que o produto fica mais acessível. Claro. Se fica mais acessível, tem mais gente que pode comprar. Ok. Mas o preço que estamos vendendo é o mesmo preço de antes. Esse plano IPCA permite que a Caixa e quem for financiar os bancos possam securitizar esses recebíveis de tal forma que esse dinheiro volte para o sistema e pare de depender só de fundo de garantia e da poupança, que são recursos que estão diminuindo. Então, pode ser uma revolução no mercado imobiliário.

Causam preocupação ao senhor as derrotas impostas pelo Congresso e o próprio governo ao ministro Paulo Guedes? Eu sou liberal também. Acho o Paulo Guedes um superministro, que está fazendo um trabalho maravilhoso. Juros caíram, inflação caiu, empregos estariam voltando se não fosse o coronavírus. BNDES e Caixa indo muito bem, o país indo por um caminho espetacular. Se tem algumas coisas que ele não está conseguindo implantar, eu sinto muito, acho uma pena.

O senhor pediu a inclusão do setor de construção civil na lista de serviços essenciais, o que foi feito por meio de um decreto assinado por Bolsonaro? De jeito nenhum. Nunca solicitei isso para o presidente, até porque a maioria das obras está funcionando. E eu não olho só para o meu umbigo. Eu tenho só quatro obrinhas. Eu não sou só a Tecnisa. Sou um dos grandes representantes do Secovi (Sindicato da Habitação). Então, quando converso com o Paulo Guedes ou com o presidente, não falo pelo meu interesse, mas pelo interesse do setor.

Por que o senhor é a favor da liberação dos jogos de azar e dos cassinos? Como liberal, sou a favor de liberar o jogo. Não sou dono de cassino e não tenho vontade de ser. Não quero fazer nenhum empreendimento imobiliário, pelo menos até o momento, que envolva ter cassino ou ter jogo, nada. É simplesmente uma posição minha. Liberar é melhor do que proibir, porque com a proibição a pessoa joga escondido, vai para a contravenção. Também acho o jogo uma coisa muita instrutiva. Aprendi muito jogando, porque a maioria dos jogos é um exercício de probabilidade, uma aula de matemática. Se eu fosse professor de faculdade, daria um curso de pôquer na sala de aula, porque é o melhor jeito de ensinar business para alguém.

Há um requerimento na CPI das Fake News que pede a convocação do senhor sob a suspeita de ser financiador da milícia da milícia digital que atua a favor do presidente nas redes sociais. Está preparado para depor? Se for convocado, irei à CPI sem nenhum problema. Eu nunca participei ou financiei qualquer movimento de fake news. Eu nem conheço a maioria das pessoas que dizem que estão envolvidas com isso, Como o meu nome circulou como amigo do presidente, acho que os caras têm essa suspeita de que eu poderia estar envolvido. Não estou.