O ministro das Relação Exteriores, Ernesto Henrique Fraga Araújo, 52 anos, diz ser contra a liderança da OMS (Organização Mundial da Saúde) no combate à pandemia da Covid-19 –doença causada pelo novo coronavírus.

Para o chanceler, apesar de a propagação da doença ter se estabelecido como uma crise global, “isso não significa necessariamente que a solução tenha que ser única”. O ministro defende a liderança dos países. Considera que deve ser levada em conta a especificidade demográfica e econômica de cada nação.

“A liderança disso [do combate à covid-19] tem que ser dos países, pois cada governo nacional sabe qual é a sua situação e pode avaliar, sobretudo países que têm a capacidade de ação, como nós temos, que têm serviços de saúde, que têm ao mesmo tempo uma economia com as características que a gente tem”, defende Ernesto Araújo em entrevista ao jornalista Fernando Rodrigues, apresentador do programa Poder em Foco, uma parceria editorial do SBT com o jornal digital Poder360.

“Acho importante que as pessoas vejam a OMS como algo que facilita a coordenação entre os países”, diz. Para ele, o  organismo mundial não tem condições de impor políticas globais para todos os seus membros.

Assista à entrevista gravada em 27 de março de 2020 (47min01s):

Reprodutor de vídeo de: YouTube (Política de Privacidade)

O ministro defende que os órgãos internacionais atuem somente como 1 espaço para que as nações se coordenem, compartilhem estudos e facilitem a resolução dos problemas com novas ideias. No entanto, essas entidades multilaterais não devem se “sobrepor aos países”.

“Em qualquer ramo, 1 organismo internacional [que venha a] se sobrepor aos países, aos governos nacionais, que sabem o que eles precisam, não é a melhor prática. Respeitamos muito a OMS, mas talvez parte desse problema seja oriundo dessa percepção de que aquilo que a OMS diz tenha que ser uma regra mundial”, afirma.

Ernesto Araújo afirma que a OMS é uma “organização importantíssima” e está cumprindo seu papel de “chamar a atenção para o tema”, divulgando informações relevantes diariamente. Porém, segundo ele, a entidade deve ser vista como “1 intercâmbio de ideias sobre o que os países estão fazendo” e não 1 órgão que centraliza as medidas que devem ser adotadas no mundo.

“É claro que essas organizações têm prestígio, mas esse prestígio não deve levar [ao pensamento de] que se tenha essa obrigação de se ter políticas mundiais. Acho que está claro isso, [quando se percebe] que os grandes países no mundo estão com políticas diferentes. Alguns fecharam logo as fronteiras, outros não. A própria OMS, se eu não me engano, era contra [ao fechamento das fronteiras]”, diz.

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SÓ 6 DOS 20 PAÍSES ESTÃO EM ISOLAMENTO

Ernesto Araújo diz que, além do Brasil, apenas 6 países do G20 fazem isolamento horizontal (confinamento de toda a população para conter a propagação do coronavírus): África do Sul, Argentina, Itália, Espanha, Índia e França. Os Estados Unidos e a Alemanha têm quarentena total em alguns Estados. Para o chanceler, a adoção da medida “depende da realidade de cada país”.

“Cada país sabe o que é melhor para a sua população de acordo com sua estrutura demográfica e econômica”, defende.

Ao se posicionar contra o isolamento integral no Brasil, o ministro diz que o confinamento promovido em alguns países europeus não deve ter 1 impacto econômico tão grande quanto pode haver ao realizado no Brasil em 1 mesmo período.

“Alguns países europeus em confinamento integral têm a população com a estrutura etária bem mais idosa e com todo tipo de mecanismos sociais. São países que praticamente não têm uma economia informal. Então, uma pessoa [desses países] ficar em casa 1 ou 2 meses recebendo algum tipo de subsídio é uma coisa. Outra coisa é no Brasil, com a quantidade de pessoas que são autônomas e que dependem de estar na rua, de haver uma circulação de pessoas para conseguir desempenhar sua função e conseguir renda”, argumenta.

Depois da gravação da entrevista, o ministro conversou por telefone com o Ministro de Relações Exteriores do Reino Unido, Dominic Raab, que confirmou que também adotou o isolamento compulsório total. Com isso, 7 países do G20, além do Brasil, adotam o isolamento horizontal. São eles: África do Sul, Argentina, Itália, Espanha (não faz parte do G20, mas é convidada para as reuniões do grupo), Índia, França e Reino Unido.

ISOLAMENTO TOTAL É DRACONIANO

Ernesto Araújo rebate críticas à estratégia defendida por Bolsonaro de isolar somente as pessoas que estão no grupo de risco (idosos, diabéticos, hipertensos e quem tem insuficiência cardíaca, renal ou doença respiratória crônica) da covid-19.

O posicionamento do presidente foi manifestado em pronunciamento em rede nacional de rádio e TV na última 3ª feira (24.mar.2020). Ao menos 13 governadores criticaram e lamentaram a fala do chefe do Executivo.

Para o ministro, o isolamento integral, adotado nos Estados por determinação dos governadores, é uma medida draconiana.

“De repente, começou-se a achar que todos os países começaram a determinar a quarentena integral e só o Brasil e só o presidente Jair Bolsonaro que quer uma solução diferente. Não é. A maioria dos países, dentro do G20, pelo menos, estão implementando outro tipo de medida que não essa medida tão draconiana, que digamos [que seja] a quarentena integral”, diz.

Segundo o ministro, a proposta de fazer com que a população deixe o isolamento horizontal e seja implementado o confinamento só para os mais vulneráveis à doença ainda está em estudo. “Há 1 esforço de todo o governo. Estamos fazendo 1 esforço de coordenação diária, várias reuniões por dia. Isso [o fim do isolamento horizontal] tem que ser visto”, afirma.

Na última semana, o governo lançou nas redes sociais vídeo com o slogan “O Brasil não pode parar”. O comercial reforça mensagens pregadas nos últimos dias pelo presidente Jair Bolsonaro, que critica a paralisia da economia em nome do isolamento social para prevenção à covid-19.

A Justiça mandou o Planalto suspender a campanha porque a medida propagada pelo presidente “pode violar os princípios da precaução e da prevenção”, impactando e colocando em risco “os grupos vulneráveis, notadamente os idosos e pobres”.

O governo contratou por R$ 4,8 milhões a agência iComunicação para cuidar de serviços digitais. A contratação foi classificada como “emergencial” e realizada sem licitação.

Em nota, o governo negou que a campanha fosse oficial, embora o site do próprio Planalto tenha divulgado (e depois apagado) o slogan.

REUNIÃO DO G20 E HIDROXICLOROQUINA

Em live no Facebook, o presidente Jair Bolsonaro disse que defendeu a hidroxicloroquina como medicação para o tratamento da covid-19 em encontro do G20 realizado por videoconferência na última 5ª feira (26.mar.2020). Ernesto Araújo afirma que o ato do presidente teve a intenção de mostrar que o Brasil está agindo de forma concreta no combate ao novo coronavírus.

“O presidente fez questão de mostrar isso [o remédio]. [Para dizer que] É algo concreto. Ali todos os líderes estavam falando: ‘Queremos combater a propagação’. E o presidente mostrou: ‘Olha, nós estamos testando este medicamento específico’. Isso eu acho que é algo que dá uma concretude a esse esforço mundial [no combate à covid-19]”, afirma.

Segundo Ernesto Araújo, durante a reunião do grupo das 20 maiores economias do mundo não foi possível saber qual foi o posicionamento dos outros países em relação ao medicamento. No entanto, segundo ele, em outra videoconferência realizada na última 6ª feira (27.mar.2020), chanceleres do Canadá, da Alemanha, Itália, Coréia do Sul e União Europeia se manifestaram de forma positiva sobre os testes da hidroxicloroquina.

O remédio está em estudo no Brasil pelo Hospital Albert Einstein. Ainda não teve eficácia comprovada. Apesar disso, Bolsonaro determinou ao Exército que aumente a fabricação do medicamento.

Em entrevista ao Poder360, Heloísa Ravagnani, infectologista e presidente da SIDF (Sociedade de Infectologia do Distrito Federal) afirmou que, por ainda estar em fase de teste, o uso da hidroxicloroquina é desaconselhado para casos de covid-19 leve ou como preventivo. Segundo ela, a ingestão pode causar efeitos colaterais graves. Saiba o que é recomendado e o que é contraindicado a quem contrair covid-19.

US$ 5 TRILHÕES DO G20

Depois da reunião, o grupo dos 20 países mais ricos do mundo anunciou que injetará US$ 5 trilhões globalmente para combater a covid-19. Segundo Ernesto Araújo, o valor vai aquecer a demanda mundial, mas não deve ter impacto “diretamente para o Brasil”.

“Aqui nós teremos as nossas medidas de estímulo, todos os países terão em alguma medida. Mas esses valores são algo que esperamos que possa [fazer] reviver a economia”, diz. “É fundamental, e todos os líderes falaram disso, manter o comércio, manter os fluxos comerciais. [É importante] Que não haja protecionismo e que até se acelere negociações.”

MINISTROS DO G20 SE REÚNEM 

O ministro afirma que nesta 2ª feira (30.mar.2020) haverá uma reunião entre os ministros do G20 para tratar das relações comerciais. “Acho que o fundamental vai ser essa questão de evitar medidas restritivas aos comércios para manter os fluxos funcionando, manter as cadeias. Hoje, em uma cadeia globalizada, se 1 país interrompe determinado fluxo de insumos, afeta a toda a cadeia”, diz.

Ernesto Araújo cita que o G20 também deve realizar outra reunião entre os ministros da Saúde do grupo. A intenção é que as autoridades de cada país apresentem e comparem os resultados das medidas implementadas em suas nações.

Apesar de considerar as reuniões e troca de experiências importantes, o ministro afirma que “é impossível 1 mandato mundial” para orientar todos os países.

“As experiências internacionais são importantes, mas não são exclusivas. Isso tem que se desfazer, me parece. Essa reunião do G20 foi importante para isso, [discutir] se tem que haver uma orientação mundial. A Organização Mundial da Saúde é importante nesse quadro, mas é impossível 1 mandato mundial”, defende.

© Sérgio Lima/Poder360 O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araujo, falou sobre reunião do G20